Conversando com um paciente sobre objetos que nos remetem a momentos emocionantes, lembrei de um texto genial de Walter Benjamin: “Sobre alguns temas em Baudelaire”, que podemos encontrar em “Obras escolhidas: magia, arte e política”. Numa das ocasiões em que participei de maneira mal sucedida dos processos seletivos para o Mestrado em Letras, de modo bem sucedido, em compensação, abriu-se o mundo da Crítica Literária para mim. Uma vez, ao contar isso a um caro poeta, ele me respondeu dizendo que eu estava a entregar a minha alma à leilão, querendo dizer da contingência positiva de ter me deparado com a Crítica Literária, com a Poesia... Concordo com ele, e levo estas palavras comigo para lembrar sempre que preciso.


Neste texto, Walter Benjamin discute aquilo que ele chama de Memória Involuntária, um conceito encontrado tanto na Literatura, como na Poesia, e na Psicanálise.


Memória Involuntária


A Memória Involuntária é criada por processos inconscientes: “Forma-se menos com dados fixados na memória, do que com dados acumulados inconscientemente que afluem à memória”. Na obra de Proust, “Em busca do tempo perdido” analisada por Walter Benjamin neste texto: “Até aquela tarde em que o sabor da Madeleine o tivesse transportado de volta aos velhos tempos, sabor a que se reportará, então, frequentemente...”, a memória da infância de Proust surge através de um sabor que remete à vivência na cidade natal, e que ainda não tinha sido recobrada. Proust destaca o caráter contingencial desta lembrança, condicionando-a ao encontro com um objeto, no caso, a Madeleine (um bolinho típico francês, de limão), lembrança que, se houvesse um esforço consciente para que acontecesse, não teria havido. Nas palavras de Proust: - “É isto que acontece com nosso passado: Em vão, buscamos evocá-lo deliberadamente, todos os esforços (conscientes) de nossa inteligência são inúteis...”.


Walter Benjamin continua: “Para Proust, o passado encontrar-se-ia em um objeto material qualquer... em qual objeto não sabemos, e é questão de sorte se nos depararmos com ele antes de morrermos, ou se jamais o encontrarmos.”.