A atividade interativa mediada pela internet pode modificar o funcionamento psíquico e, consequentemente, a corporeidade?
Quais as implicações disso para: a subjetividade e a coletividade?
Pretendo realizar uma pesquisa acerca das consequências do Ethos Virtual contemporâneo para a corporeidade, tendo como método a Psicanálise Aplicada. Penso que a superexposição ao mundo virtual reflete no psiquismo, e consequentemente, no corpo, lembrando que, para a Psicanálise, o corpo humano é menos biológico do que atravessado pela linguagem.
No Seminário XVI, Lacan utiliza a figura matemática da Banda de Moëbius para demonstrar que há no Sujeito uma continuidade entre dentro e fora, daí o caráter social do inconsciente. Autores como: o filósofo coreano Byul-Chul Han, e o sociólogo italiano Franco ‘Bifo’ Berardi, podem acrescentar importantes contribuições ao estado de arte do Ethos Virtual no que se refere à subjetividade. A Psicanálise Lacaniana contemporânea pode ajudar a desenvolver os pensamentos destes autores no que concerne ao campo do inconsciente. Proponho uma interlocução entre: o Seminário XVI de Lacan: “De um outro ao Outro”; a Psicanálise Lacaniana contemporânea; e os dois autores citados anteriormente, acerca da influência que o mundo virtual tem no psiquismo, mais propriamente, na corporeidade. Procurarei responder de que maneira a influência que a internet tem na vida contemporânea pode transformar as subjetividades, e afetar o funcionamento psíquico e corporal, passando pela discussão sobre a aceleração imposta pelo capitalismo global, que atende ao propósito da dominação, e dilui a convivência, restringindo o contato entre as pessoas que, imersas no mundo virtual - muitas vezes desde o começo da vida - precarizam a alteridade pela falta de exposição à diferença por consequência da seleção algorítmica de conteúdo (as famigeradas “bolhas”). A longo prazo, este fenômeno reduz a capacidade de crítica social, já que o isolamento promove a ilusão de que se pode prescindir do outro, desarticulando a Pólis, engendrando uma crise de representatividade política. Proponho estudar o atual Mal-Estar na Cultura, no que tange aquilo que Franco ‘Bifo’ Berardi chama de cibertempo: uma relação entre a veloz informação encontrada e criada no ciberespaço, e a (in)capacidade que o organismo consciente tem, de elaborar as informações que provêm da Internet: “A esfera objetiva do ciberespaço se expande com a velocidade da replicação digital, mas o núcleo subjetivo do cibertempo evolui a um ritmo lento: o ritmo da corporeidade, do Gozo, e do sofrimento.” (Berardi, A fábrica da felicidade, página 19).