“É preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais atos, é preciso revelar tais mecanismos a elas próprias, procurando impedir que se tornem novamente capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma consciência geral 

acerca desses mecanismos.” Theodor Adorno, 1986 - Educação após Auschwitz.

A internet, originalmente Arpanet, foi criada em 1969 pela Defensoria dos EUA para 

preservar virtualmente: a comunicação, e o conteúdo científico, de possíveis bombardeios (Folha, 2001). O modo com que ideologicamente vem sendo utilizada hoje, não deixa de remontar à sua origem. 

A questão da influência da internet nas subjetividades me interpela desde que li uma 

entrevista de Franco ‘Bifo’ Berardi, “Os transtornos mentais provocados pelas mudanças 

neoliberais” concedida a Juan Íñigo Ibánez, e publicada no site Outras Palavras, sobre as 

implicações afetivas no fenômeno do letramento, causadas pelo fato das primeiras interações com as letras serem mais por via dos smartphones do que pela voz materna:

Franco ‘Bifo’ Berardi argumenta que a expressão: “nativo digital” não é meramente 

metafórica. Trata-se de uma definição capaz de nomear a mutação cognitiva 

contemporânea:

“A primeira geração conectiva, aquela que aprendeu mais palavras por meio de uma máquina do que pela voz da mãe, encontra-se numa condição verdadeiramente nova, sem precedentes na história do ser humano. É uma geração que perdeu a capacidade de valorização afetiva da comunicação, e que se vê obrigada a elaborar os fluxos semióticos em condições de isolamento e de concorrência.”.

Ele cita o livro: “A ordem simbólica da mãe”, da filósofa italiana Luisa Muraro, onde ela 

argumenta que a relação entre significante e significado é garantida pela presença física e 

afetiva da mãe:

“O sentido de uma palavra não se aprende de maneira funcional, mas afetiva. Eu sei que uma 

palavra possui um sentido - e que o mundo como significante possui um sentido - porque a 

relação afetiva com o corpo de minha mãe me introduz à interpretação como um ato essencialmente afetivo. Quando a presença afetiva da mãe torna-se rara, o mundo perde calor semiótico, e a interpretação fica funcional".