A libido e o líder
“O que a Psicologia denomina Superego, consciência moral, é substituído no contexto dos
compromissos por autoridades exteriores (...) justamente a disponibilidade em ficar do lado do poder, tomando exteriormente como norma, curvar-se ao que é mais forte, constitui aquela índole dos algozes que nunca
mais deve ressurgir. As pessoas que os assumem mais ou menos livremente são colocadas numa espécie de permanente estado de exceção de comando. O único poder efetivo contra o princípio de Auschwitz seria
autonomia, para usar a expressão kantiana; o poder para a reflexão, a autodeterminação, a
não-participação.” Adorno - Educação após Auschwitz.
Numa palestra, o filósofo Vladimir Safatle explicou que o advento do Cartão de Crédito modificou a relação do Sujeito com o seu Desejo: desde então, não é necessário adiar a
satisfação momentânea de um desejo material. Com o Cartão, a lógica de acesso se inverte: não só antecipando a aquisição, mas também enfatizando o funcionamento ambivalente do Supereu. Não se trata mais, como na época de Freud e da sociedade de produção, de uma Instância que barra o Gozo sem limites, e nem
somente de uma relação de permissão e de proibição, mas também de incitação permanente,
já que na nossa sociedade de consumo existe um discurso publicitário que enfatiza a tentativa de transformação do vazio, inerente ao Ser, em consumo.
A relação do homem com a proibição é muito discutida pelas Ciências Humanas.
O filósofo Luc Ferry, supôs o declínio da Função Paterna, e a foraclusão generalizada do Nome-do-Pai, mas esta proposta confunde Imago Paterna, que, de forma geral, é um conjunto de representações verticais de instituições, leis invisíveis, que mantêm a estrutura político-ideológica em funcionamento hierárquico, com Função Paterna, que é a operação psíquica necessária para a fundação do Sujeito do Inconsciente, cuja falha resulta na Estrutura Psicótica. O retorno do discurso fascista no mundo é indício de que
infelizmente a Imago Paterna continua atuante.