Transformar Vivência em Experiência
É possível falar da claustrofobia das pessoas no mundo administrado, um sentimento de encontrar-se enclausurado numa situação cada vez mais socializada, como uma rede densamente interconectada. Quanto mais densa é a rede, mais se procura escapar, ao mesmo tempo em que precisamente a sua densidade impede a saída. Isto aumenta a raiva contra a civilização. Esta torna-se alvo de uma rebelião violenta e irracional.” Adorno -
Educação após Auschwitz.
A aceleração dos acontecimentos não costuma ser bem assimilada pelo psiquismo. Maria Rita Kehl em “O tempo e o cão”, considera a depressão decorrente da superexposição a um tempo que é marcado pela continuidade de vivências (Walter Benjamin) que não são assimiladas como experiências pelo Sujeito.
“O tempo, ‘tecido da nossa vida’ no dizer de Antônio Cândido, é também a condição ontológica do psiquismo. A qualidade que define o psíquico não é espacial, é temporal; daí a dificuldade dos neurocientistas em localizar, no tecido cerebral, o inconsciente freudiano.” (p. 112).
Para Maria Rita Kehl há uma relação entre o aumento dos casos de depressão, e a urgência que a vida social imprime à experiência subjetiva do tempo. “A temporalidade tecida de uma sequência de instantes que comandam sucessivos impulsos à ação, não sustentados pelo saber que advém de uma prévia experiência de duração, é uma temporalidade vazia na qual nada se cria, e da qual não se conserva nenhuma lembrança significativa capaz de conferir valor ao vivido.” (p. 116). Ela sugere a análise como um refúgio do tempo frenético do neoliberalismo, onde as Demandas sociais e o Gozo se sobrepõem ao Desejo, de tal maneira, que conduzem ao adoecimento: “(...) Na duração do tempo diacrônico (de historização, durante o processo de análise, da verdade do Sujeito) instaurado por esta magia lenta que é a Psicanálise, os depressivos se instalam aliviados, sem pressa, seguros de que é dessa temporalidade distendida que eles precisam para se libertar da pressão aniquiladora das demandas do Outro.” (p.119).
O estar no mundo com os outros fica comprometido, segundo a autora, pois há uma exigência de extroversão que impede, aos poucos, a subjetivação das vivências, para a transformação em experiência.