Freud e as Ciências Humanas.
Freud foi um cientista que colaborou nos primórdios da Biologia da memória: as primeiras pesquisas científicas sobre memória têm sua autoria, mas não tem tido o devido crédito. Escrevo à luz de uma entrevista publicada na Folha, em que um neurocientista dizia que a Psicanálise, do ponto de vista dele, seria um mero exercício estético, e não um tratamento. Desde o começo a Psicanálise é um tratamento que procura produzir teorias e desenvolve seu método próprio, apesar de ainda hoje ser negada, talvez pelos mesmos motivos que criara resistências no início do Século XIX.
A Psicanálise tem uma relação de "extimidade" com as ciências. Extimidade (íntimo e exterior) é um neologismo que pode significar estar no interior e no exterior de algo, simultâneamente, assim como a banda de Moëbius, figura fascinantemente ilustrada por Escher, artista plástico, que pode ser vista na capa do “Seminário X” de Lacan, demostra: o que está dentro está fora.
A Psicanálise desde o seu início (por volta de 1890) utilizou-se do Campo Semântico de outras ciências - a exemplo de: sublimação e transferência, que são termos importados da Física - para descrever seu método. Freud queria compartilhar a descoberta do inconsciente com os seus contemporâneos, e precisava utilizar de uma linguagem comum às ciências que lhe eram contemporâneas para ser compreendido.
65 anos mais tarde, Lacan dedicou uma série de seminários que estão concentrados no livro "Seminário XVI - De um Outro ao outro" para formalizar a Psicanálise utilizando-se da Lógica, e da Linguística. Esta última, apesar de não existir como ciência na época de Freud, já era notada por ele no funcionamento do inconsciente, e isso pode ser localizado bibliograficamente em "A interpretação dos sonhos".
No título deste Seminário lacaniano, o Outro em maiúsculo refere-se a um "lugar" estrutural - estrutural como a Antropologia e a Linguística - que supostamente conteria a verdade. "De um Outro ao outro", muito resumidamente, pode significar que não há discurso totalitário, que contenha toda a verdade.