O Real retorna sempre ao mesmo lugar.
Trauma e Repetição.
"(...) Isto é como olhar para o céu, e reproduzir na terra o caminho aparente que o sol descreve ininterruptamente, passando, a cada dia, por cada Grau do Zodíaco, pacientemente, seguindo o mesmo caminho que já percorreu milhares de milhões de vezes antes, retornando sempre ao mesmo ponto: o Solstício de Inverno."; "Esta repetição que traz em si a inovação: o voltar sempre ao mesmo ponto, mas o ponto nunca ser o mesmo." "(...)Trazendo a chance de gerar no presente, um futuro mais promissor." FU, O Retorno, I Ching, o Tratado das Mutações, Versão de Wu Jyh Cherng.
A Repetição é um dos instrumentos da Clínica Psicanalítica. Há um automatismo de repetição em tudo aquilo que pertence ao campo do Real (a natureza, a contingência, o acaso, o devir, etc...). O Real é tudo aquilo que não foi simbolizado - e nem tudo será. O Trauma é uma experiência residual na vida das pessoas, um nó na linha do tempo, um momento ao qual muitos outros acontecimentos, infelizmente, se referem. Quando escutamos a fala de um paciente, estamos à procura daquilo que chamamos de "A Outra Cena": um acontecimento que foi intenso, mas que ainda não encontrou representação por meio das palavras. Muito frequentemente, algum mal-estar relatado pelas pessoas que analisamos só é considerado mal por remeter - ainda que remotamente - a um acontecimento traumático. Pedindo para que a pessoa fale, se possível, sem se preocupar com o conteúdo, relate sonhos, devaneios, e etc, estamos articulando com outras palavras o que não pôde ser falado do Trauma, criando relações com um número cada vez maior de significantes, e deste modo, reunindo Afeto e Representação, o que permite desfazer a Angústia, ou Ansiedade, para usar um sinônimo mais corrente, que desencadeia um comportamento automatizado. A Regra Fundamental de Freud: "Fale o que vier à mente" se justifica pela sua eficácia desde a criação da Psicanálise: desbloquear aquilo que está fixado por não ter sido simbolizado, pois a "linguagem é aquilo que permite a substituição e o deslocamento - a própria antítese da fixação... O Real é submetido à dialetização..." (FINK, O Sujeito lacaniano, entre a linguagem e o Gozo, pp.: 45, e 46).